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Foto:  Vinicius Matos

Família da fotógrafa Ana, de Belo Horizonte, estava nos cânions no dia do acidente 

Capitólio: vítimas ainda buscam superar trauma da tragédia

Reportagem: Keuly Vianney
n.noticiar@gmail.com
31/07/2022

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"Por muitos meses, tive pesadelos com aquele paredão caindo e tinha o sentimento de que a pedra estava nas minhas costas”, desabafa o policial Johnny Ramos de Almeida, com lágrimas nos olhos. No dia 8 de janeiro de 2022, quando uma rocha se desprendeu dos cânions de Capitólio, desabando sobre lanchas de turistas no Largo de Furnas, em Minas Gerais, Johnny, que vive em Campinas (SP), perdeu, de uma só vez, um casal de tios, quatro primos e três amigos.


A família do policial estava na lancha Jesus, atingida de frente pelo paredão. Todos a bordo morreram. “As dores estão sendo abrandadas com o tempo e, hoje, os sonhos são das lembranças boas com eles, pois meus tios eram os mais chegados após o falecimento dos meus pais. A filha deles, que não estava em Capitólio, foi a única que sobrou da família. Meu primo de 32 anos morou comigo em Campinas e era como meu irmão. O filho dele só tinha 14 anos", lembra Johnny.

O policial foi o responsável por reconhecer os corpos no posto do Instituto Médico Legal (IML) de Passos. Junto com outros familiares, ele também cuidou da burocracia  para providenciar certidões de óbito e dos trâmites posteriores, cinco dias dramáticos até o velório e o enterro de todos. "Foi um reconhecimento difícil devido à condição dos corpos. Um momento doloroso. Até hoje lembro do cheiro do IML. Fizemos um esforço conjunto na família para liberar os documentos", conta.

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Policial Johnny Ramos (esq.) guarda foto com o primo falecido no acidente em Furnas / Foto: Arquivo Pessoal

Seis meses após o acidente, quem perdeu parentes ou estava no lago e sobreviveu à tragédia ainda tenta superar o trauma. Ana Martins da Costa, fotógrafa de Belo Horizonte, que estava na lancha imediatamente atrás da embarcação que levava a família de Johnny, lembra em detalhes daquele sábado, quando foi passear nos cânions com familiares e amigos e se tornou testemunha do paredão desabando.


"Fiquei muitos dias sem dormir após o acidente, acordava assustada, tinha pesadelos com pedra e água. Hoje me sinto agradecida a Deus pela oportunidade de estar viva com minha família. A gratidão também é muito grande a quem nos socorreu e nos salvou naquele dia. Foram anjos em nossas vidas", diz Ana.

Família de Ana estava na lancha 3; lancha 1 foi totalmente destruída e a 2 conseguiu escapar / Foto: Reprodução

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A fotógrafa estava em Capitólio desde o dia 3 de janeiro com 14 pessoas, incluindo o marido e dois filhos, de 9 e 11 anos, duas irmãs, um cunhado, três sobrinhos e um casal de amigos com filhos. Era a primeira vez do grupo na região. Eles alugaram uma casa por uma semana para conhecerem a cidade e tinham muita expectativa de passear nos cânions devido à beleza do local.


Todos estavam na lancha no dia do acidente e sofreram algum tipo de lesão física. Ana fez uma cirurgia no punho, cortou a testa, o pé e teve escoriações pelo corpo. O filho mais novo quebrou o braço, enquanto o mais velho feriu a coxa. O marido sofreu ferimentos mais leves.

Já uma das irmãs de Ana cortou parte da cabeça, da orelha e da bochecha, precisou de cirurgia plástica e reconstituiu o canal auditivo, mas sem perda da audição. Nos dias seguintes à fatalidade, a família viveu momentos de aflição, angústia, insegurança. Ana, o marido e os filhos recorreram à terapia para lidar com o trauma, principalmente as crianças, que dormiram alguns dias na cama dos pais por sentirem medo.

Apesar do abalo emocional, a fotógrafa conta que a família conseguiu se recompor - na medida do possível, já que as cenas ainda estão muito frescas na memória: "Na época, eu falava do acidente, me emocionava e chorava, mas agora estou mais forte. Hoje, já conseguimos ressignificar um pouco, mas superar não. Temos muitas lembranças ainda, mas vamos superar com certeza", afirma.

Em Campinas, o policial Johnny diz que passou um tempo tentando achar culpados para o acidente, mas hoje já consegue aceitar a conclusão de que foi uma tragédia causada por fatores naturais. "Conheço bem essa região, onde acampo desde 1990. Quando chove, fica mais perigoso. Houve vários fatores para que a lancha com meus familiares estivessem naquele lugar na hora em que a pedra caiu, como o atraso do passeio em uma hora, visita a outras cachoeiras...  Minha tia não gostava de fazer passeio com água, mas aconteceu", diz.

A fotógrafa Ana ainda se comunica com alguns sobreviventes que passaram pela mesma situação, como uma enfermeira que ajudou nos primeiros socorros no rio e o piloto da lancha que perdeu a embarcação no acidente. Para ajudá-lo, a fotógrafa promoveu uma vaquinha virtual em janeiro e arrecadou cerca de R$ 21 mil. "Nosso objetivo era comprar uma lancha nova, mas custa R$ 400 mil", conta. "Ainda quero voltar a Capitólio um dia. Fechar esse ciclo. Hoje, não sei se voltaria, mesmo porque meus filhos ainda não querem".

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Ana, marido e filhos semanas após acidente / Foto: Arquivo Pessoal

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Esta série de reportagens é uma produção independente, realizada entre maio e julho de 2022, por meio do programa Acelerando a Transformação Digital, iniciativa do International Center For Journalists (ICFJ) e Meta Journalism Project, dos Estados Unidos, e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). 

Ficha técnica: 
Reportagem e produção:
Keuly Vianney

Edição e mentoria: Fátima Sá
Fotografias: Aluísio de Souza
Webdesigner: Flávia Ribeiro

Consultant ICFJ: Bruna Borjaille 
Programa Manager ICFJ: Alison Grausam