Cânions de Capitólio e praias de Fernando de Noronha servem de modelo para regras

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Capitólio: geólogos vão criar primeiras normas de risco no turismo

Reportagem: Keuly Vianney
Fotos: Aluísio de Souza
n.noticiar@gmail.com
31/07/2022

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Seis meses após a tragédia que deixou 10 mortos e 32 feridos nos cânions de Furnas, em Capitólio, Sul de Minas Gerais, um grupo de geólogos trabalha para criar as primeiras normas de risco geológico e turismo do Brasil. Além da região, eles também vão usar avaliações técnicas realizadas em Fernando de Noronha para definir as regras. A cidade ainda sofre as consequências do acidente e tenta atrair novos visitantes apostando no turismo seguro.


O presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo), Fábio Augusto Reis, coordena a equipe que trabalha na definição das normas. O time inclui 25 representantes de universidades, do Serviço Geológico do Brasil, da Febrageo, da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 

"Estamos visitando as áreas para apontar os riscos, pois cada local tem uma situação e realidade diferentes, como  no caso dos cânions de Capitólio que são distintos das falésias de Fernando de Noronha, por exemplo", diz o presidente da Febrageo, que também liderou o primeiro grupo de geólogos a visitar e avaliar os cânions de Furnas após o acidente.


"Com este conjunto de situações, vamos levantar o passo a passo do que é necessário fazer em cada área, entrar num consenso e estabelecer as normas gerais, que podem se tornar legislação estadual ou federal", complementa o pesquisador e mestre em Geotecnia e Geologia Ambiental na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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Geólogos em avaliação nos cânions de Furnas; Brasil tem realidades geológicas diferentes / Foto: Divulgação

Até o fim de 2022, Reis espera as avaliações da equipe sobre os pontos visitados para discutir com os especialistas e estabelecer as normas. Mais para a frente, serão visitadas áreas de cachoeiras, cavernas e montanhas.

"É fundamental a adoção das normas específicas de gestão de riscos geológicos em áreas turísticas, especialmente pelo aumento do turismo de natureza e aventura no Brasil. Posso dizer que o acidente em Capitólio ajudou a acelerar o processo", explica o especialista.


Outra geóloga, Joana Sanchez, uma das poucas especialistas que trabalham com geologia estrutural e geoturismo no Brasil, também compartilha a mesma ideia de Reis.

Geóloga Joana diz que normas podem impedir outras tragédias no país / Foto: Arquivo Pessoal

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"O acidente nos cânions de Capitólio acendeu uma luz no Brasil inteiro na relação risco geológico e turismo", diz Joana, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante da equipe de geólogos que prepara as normas. "Sabemos que a causa da queda do paredão foi natural, mas do jeito que está não dá para continuar. É necessário criar a regulamentação dos locais de turismo ligados à natureza, que chegam a 90% no território nacional, para evitar turismo predatório e outras tragédias", avalia a geóloga, que também participou das primeiras avaliações técnicas nos cânions de Furnas após o acidente em janeiro. 

Logo após a queda do paredão em Capitólio, o Ministério do Turismo levantou o número de destinos turísticos que apresentam risco de eventos geológicos no Brasil (veja abaixo). Com a medida, o governo pretende realizar ações de prevenção de acidentes.

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Número de áreas com risco geológico iminente no Brasil, conforme levantamento do Ministério do Turismo. As regiões incluem o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Goiás) e os cânions de Xingó (Sergipe) e Poti (Piauí).

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Legislação atual
A única lei em vigor sobre o assunto (Lei 12.608/2012), que estabelece a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, cobra dos municípios e Estados a Gestão de Riscos e Desastres, bem como sua responsabilidade em eventuais acidentes. Mas a legislação trata apenas de zonas de risco em áreas urbanas, e não em paisagens turísticas e rurais, como alertou a Febrageo logo após a tragédia nos cânions de Furnas.


Na época, a Febrageo também cobrou investimentos do governo federal nas medidas e controle de riscos naturais no Brasil, pois o território nacional é rico em atrativos turísticos ligados à geologia, como parques, cavernas, montanhas, cachoeiras, cânions, falésias e até praias. O grande problema é que muitas dessas áreas não têm plano de manejo ou possuem algo incompleto. Por isso, a categoria defende a atualização urgente da lei.


Geólogos já vinham alertando para o problema, especialmente após acidentes em atrativos naturais no fim de 2021, como o desabamento da gruta em Altinópolis (SP), onde nove instrutores e bombeiros civis foram soterrados e apenas uma pessoa sobreviveu.

Contenções
De acordo com Joana, a equipe de nove geólogos que atuou em Capitólio já realizou três avaliações nos cânions de Furnas, com o mapeamento de cinco pontos de perigo, sendo dois com risco iminente de queda.


Para realizar este trabalho, os cânions foram interditados no dia do acidente, sendo liberados parcialmente somente no fim de março. A partir das visitas e avaliações, foram preparados laudos técnicos, apontando as medidas e melhorias imediatas a serem efetuadas pela Prefeitura de Capitólio para liberar a visita ao atrativo com mais segurança.


Adotadas desde março, as principais medidas incluíram a avaliação diária dos cânions por um geólogo, interdição da área com risco de desabamento e instalação de contenções de rocha, que já são usadas na construção civil, mas não com a finalidade turística e em paredões, como será realizado em Capitólio. As contenções são feitas de telas de aço e devem ser instaladas nos maciços rochosos no prazo de um ano. 

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Cânions de Furnas vão ter projeto inédito de contenção de aço em cinco pontos de perigo detectados na análise geológica (no detalhe ampliado, veja modelo de contenção que pode ser usado em Capitólio). A formação rochosa dessa região do Sul de Minas data de 600 milhões de anos, sendo formada na Era Proterozóica, com predominância de quartzito intercalado com xisto

Área dos cânions aberta ao público é segura, diz geóloga

Após o acidente, a segurança transformou-se numa das principais preocupações para quem pretende visitar a região dos cânions de Furnas, em Capitólio. A geóloga Joana Sanchez afirma que o local passou a ter alto índice de segurança com as medidas já implantadas desde o fim de março.


"O índice de segurança hoje é muito maior do que o turista imagina. Calculamos até a distância que as pessoas poderiam ser atingidas com estilhaços das pedras caso algum bloco caísse. A partir do nosso trabalho, foi feita a exigência da avaliação geológica diária nos cânions, tendo o geólogo o poder de fechá-los", conta Joana.

A equipe de geólogos também deve fazer novas avaliações em outros três locais com formações rochosas na região de Capitólio: Vale dos Tucanos, Cascatinha e Cabrito.

Apesar de já conhecer os cânions de Furnas desde 2005, quando realizou o mapeamento geológico do local, Joana ainda lembra como foi a visita ao atrativo logo após o acidente.


"A sensação de ser a primeira equipe a entrar nos cânions depois da tragédia foi horrível. Todos ficamos em silêncio e vimos a cicatriz no paredão. Sabemos que fenômenos naturais, como uma cabeça d’água, ajudaram no desplacamento do bloco rochoso ao longo dos anos e também identificamos que havia mau uso do local, mas não há como afirmar que isso foi causa determinante da queda.”


A especialista alerta que a tragédia poderia ter sido evitada se, na época, houvesse visitas e avaliações técnicas e geológicas ao local. Na ocasião do acidente, a Febrageo explicou que zonas de fraqueza no paredão facilitaram o desprendimento da rocha, lembrando que as chuvas costumam causar esse tipo de movimento. Outro ponto levantado foi a variação do nível de água sofrida por muitos reservatórios brasileiros nos últimos anos, que também acelerou os processos erosivos e de movimento dos blocos.

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À direita, cicatriz da pedra que desabou do paredão rochoso dos cânions

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Esta série de reportagens é uma produção independente, realizada entre maio e julho de 2022, por meio do programa Acelerando a Transformação Digital, iniciativa do International Center For Journalists (ICFJ) e Meta Journalism Project, dos Estados Unidos, e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). 

Ficha técnica: 
Reportagem e produção:
Keuly Vianney

Edição e mentoria: Fátima Sá
Fotografias: Aluísio de Souza
Webdesigner: Flávia Ribeiro

Consultant ICFJ: Bruna Borjaille 
Programa Manager ICFJ: Alison Grausam