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Skatistas de Passos batalham por associação

Reportagem e fotos: Keuly Vianney

n.noticiar@gmail.com

09/08/2021

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A boa performance do skate nas Olimpíadas de Tóquio deu mais um impulso aos skatistas passenses, que batalham para criar uma associação que dê maior representatividade ao esporte na cidade. As três medalhas de prata conquistadas nos Jogos podem ser a grande virada para quem curte a modalidade em Passos, onde cerca de 40 pessoas são skatistas assíduos, mas outras centenas se consideram praticantes e visitam as pistas disponíveis no município para fazer manobras ou apenas andar de skate.

Apesar de ganhar notoriedade olímpica só em 2021, o skate é um dos esportes com alto crescimento no número de adeptos pelo mundo afora. Não é que o skate se tornou legal nas Olimpíadas. O esporte sempre foi legal e atrai desde crianças a adultos: em Tóquio, a brasileira Rayssa Leal, a Fadinha, de 13 anos, competiu de igual para igual com atleta americana de 32 anos e conquistou a prata na categoria street.

Mais duas medalhas prateadas vieram no masculino, com Kelvin Hoefler no street e Pedro Barros no park. Os brasileiros são atletas de alto nível e de destaque em competições internacionais, como o Campeonato Mundial de Skate e os X Games.

Em Passos, a realidade é bem diferente, mas a paixão pelo skate é semelhante a dos atletas olímpicos. Um desses aficionados é o engenheiro Jonathan Lucas Paim Santos, que anda de skate há 20 anos e sempre acompanha a história do esporte na cidade. “O skate só sobrevive em Passos pelo fato dos praticantes amarem  andar de skate. Todas as ações pró-skate na cidade são unicamente realizadas pelos próprios skatistas. Não existe apoio do poder público e nem da iniciativa privada. Mesmo sem apoio, o esporte sobrevive”, diz o skatista.

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Jonathan é skatista há 20 anos e acompanha esporte em Passos

Conforme ele, é latente a necessidade de criar uma associação representativa do skate. Jonathan lembra que já houve uma tentativa de organização no passado, com os skatistas contribuindo mensalmente para ajudar na manutenção das pistas, mas era tudo informal.

“Agora, pretendemos formalizar tudo. Com a associação, conseguiremos recursos para melhorar o esporte, principalmente as pistas. Mas são várias as dificuldades, como conseguir um advogado e um contador para nos auxiliar. Isto tudo demanda gasto, além de dedicação e tempo”, afirma.

Uma grande dificuldade apontada pelo skatista é falta de incentivo do poder público. “Não temos apoio e não existe diálogo satisfatório. O que se sabe é que não há verbas. Com muito custo, conseguimos cortar os galhos das árvores da pista da Barrinha que cresceram por cima dos refletores de luz. Em 20 anos, só tivemos duas trocas de lâmpadas na pista”, lembra.

 

Para ele, a representatividade maior é a atuação dos praticantes do esporte que fazem a diferença na sociedade. E as Olimpíadas podem gerar impacto positivo, mas insuficiente para pequenas mudanças a curto prazo.

 

“O skate já era um esporte mundial e um dos mais praticados do mundo. As Olimpíadas apenas evidenciaram para mais gente ver. Eu vejo que, pela evidência que o esporte teve nos Jogos, o nível dos atletas vai melhorar. Na mesma direção, o estigma negativo vai perder força e o esporte será mais respeitado. Os pais vão apoiar seus filhos e a sociedade vai aceitar mais os skatistas. Minha provocação à iniciativa pública é a dúvida. Eu duvido que vá acontecer algo estrutural e, se ocorrer, será a longo prazo”, considera.

Outro skatista que acompanha o cenário do esporte em Passos é o fotógrafo Patrick Dias, amante do skate há cerca de 10 anos. Ele considera que há um número relevante de praticantes na cidade, o que torna necessária a união dos esportistas.

“Foram dados alguns passos para a criação de uma Associação do Skate Passense, para conseguir apoio e fundos para investimentos e realização de eventos mais elaborados e atrativos para a cidade. A principal dificuldade é a demora em conseguir recursos e apoiadores. Este ano, daremos início em algo formal, podendo solicitar recursos para reformas, eventos, etc”, adiantou Patrick. “Para melhorar a infraestrutura do esporte, precisamos de todo e qualquer apoio, seja de empresas, político ou civil”.

Ele informou que já houve algumas contribuições da Secretaria Municipal de Esportes de Passos ao skate nos últimos meses, como iluminação e poda de árvores nas pistas, bem como doação de latas de tinta para pintar os espaços.

“Foram contribuições que fizeram diferença. Também estamos firmando parceria sólida com a secretaria para construir e melhorar os lugares para a prática de esportes. Este ano, começamos projeto no Vila Rica para construir vários obstáculos não só para o skate, mas também para patins, patinete, bike, indo além do skate”, diz o fotógrafo.

Para Patrick, a visualização do skate nas Olimpíadas é uma maneira de incentivar a população a valorizar outros esportes. “O skate conquista cada vez mais espaço e já passou da hora da cidade abraçar o esporte. Temos dois grandes clubes e nenhum dos dois possui pista de skate. Estamos com projeto para apresentar aos clubes e esperamos que eles aceitem a nossa proposta. Passos também precisa de um centro olímpico para treinar atletas e criar eventos. Isso só tem a fortalecer a cidade”, avalia o skatista.

Os 3 locais do skate em Passos

Depois de muita luta e improviso nas ruas, Passos é uma das raras cidades do interior do Brasil com pistas e pontos de skate na modalidade street, atraindo meninos, meninas, de todas faixas etárias. Veja onde elas se encontram e como estão atualmente, de acordo com informações dos skatistas Jonathan Paim e Patrick Dias.

Skatista

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Barrinha

Inaugurada em 2000, a pista da Barrinha, como é conhecida, é a mais antiga da cidade. Leva esse nome porque fica do lado do Ginásio da Barrinha e possui três rampas e vários obstáculos, incluindo dois corrimãos para manobras. Atualmente, precisa de reforma geral, como pintura dos obstáculos, revitalização do piso, que está com rachaduras, e ainda disponibilizar água para os atletas e praticantes.

Endereço: Avenida Comendador Francisco Avelino Maia, 2010

Quadrinha

Começou a ser usada este ano no bairro Vila Rica. Os próprios skatistas e pessoas da comunidade que se identificam com esporte aproveitaram uma quadra antiga para transformá-la numa pista para skate. Espaço conta com duas rampas e obstáculos. Precisa de iluminação adequada e água disponível para atletas e praticantes.

Endereço: Rua David Baldini esquina com rua Rio Grande

Novo Horizonte

Localizada no bairro Novo Horizonte, moradores locais começaram a usar uma quadra depois de a descobrirem abandonada. Entretanto, a pista está praticamente sem recursos, sendo necessárias iluminação e reforma urgentes.

Endereço: Rua dos Advogados esquina com avenida Breno Soares Maia

Cidade já sediou vários campeonatos

Mesmo antes de se tornar modalidade olímpica, os skatistas passenses já realizaram vários campeonatos de skate na cidade, atraindo esportistas de diversas localidades. Só no ano passado, foram dois eventos em plena pandemia do novo coronavírus, como o Pistola Day, realizado em setembro na Barrinha, e o Patrimanus Day, que ocorreu em dezembro no Novo Horizonte.

Apesar das dificuldades, os skatistas de Passos garantem que o esporte da cidade é bem visto na região, pois o município atrai amantes do skate de muitos municípios vizinhos, como Alpinópolis, São José da Barra, Itaú de Minas, Pratápolis, Cássia e São Sebastião do Paraíso.

O fotógrafo Patrick Dias é um entusiasta dos eventos, fazendo as fotos e vídeos para divulgar nas redes sociais. Já Jonathan Paim criou um perfil no Instagram, o @lafamilyskateboarding, que engajou quase 500 seguidores. Veja na Galeria abaixo algumas fotos de Patrick dos campeonatos realizados em Passos.

“O skate passense tem grande respeitabilidade em nossa região, daqui surgiram vários skatistas que colaboram com a cena nacional e internacional e ainda temos skatistas influentes em revistas famosas de skate, patrocinados por marcas fortes. Outros se mudaram para Europa e América”, afirma Jonathan. “Vários poderiam disputar mais campeonatos e um dos motivos de não participar, é a condição financeira dos atletas. A maioria anda porque ama o esporte”.

 

“Com certeza, tivemos muitos skatistas que participaram de campeonatos e se houvesse mais apoio, teríamos muitos mais. Meu amigo Nilmar Mendonça já disputou um champ na mesma bateria que o medalhista kelvin Hoefler”, conta Patrick.

Meninas se dedicam ao esporte

E para quem acha que skate é esporte só de meninos, está enganado. As mulheres vêm mostrando que também são apaixonadas pelo esporte, principalmente depois da visibilidade das campeãs Pâmela Rosa, Letícia Bufoni e Rayssa Fadinha, que têm influenciado muitas meninas a andarem de skate. Veja a história da estudante de Passos, Maria Eduarda Alves Faria, de 13 anos, que começou manobrar o skate há cerca de 3 meses.

A influência maior foi da Fadinha. Ela e a amiga Maria Vitória Guilhermino Maia, também de 13 anos, praticam o esporte juntas na pista da Barrinha. “A fadinha nos influenciou bastante. Ela é muito da hora e gostamos muito dela. Ela manda muito bem no skate”, diz a garota, a qual teve o apoio dos pais. “Foi mais difícil convencer minha mãe, mas meu pai sempre me apoia porque já andou de skate e curte muito”, conta a adolescente.

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Maria Eduarda, de 13 anos, começou a andar de skate influenciada pela Fadinha / Foto: Divulgação

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