ESPECIAIS

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Auro Maia com produtos Guaií: café, molho de tomate, mel e goiabada / Fotos: Divulgação

Produtos orgânicos trazem solidariedade

para população de rua em Passos

Reportagem e edição: Keuly Vianney

n.noticiar@gmail.com

29/01/2022

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Se você se solidariza com as pessoas em situação de rua em Passos e gosta de alimentação saudável, nesta semana começaram a ser vendidos na cidade produtos orgânicos da Cooperativa dos Camponeses Sul Mineiros (Camponesa), que possui assentamentos de famílias rurais em Guapé e Campo do Meio, no Sul de Minas. Café orgânico, mel silvestre, goiabada cascão e molho de tomate da marca Guaií terão lucro revertido para a população de rua e são resultado do cultivo e produção sustentável e sem agrotóxicos, que garantem melhor qualidade da comida consumida em casa.

 

Conforme informou o militante e defensor da causa em Passos, Auro Maia, além da comercialização para os interessados, estão sendo distribuídos kits desses alimentos para famílias de pessoas que estão ou estiveram em situação de rua na cidade. Já foram beneficiadas 15 famílias com doação dos alimentos, incluindo aquelas que vivem em imóveis abandonados ou em condições muito precárias, ou ainda quem já conseguiu sair das ruas. O lucro da venda também vai ajudar num festival cultural em março (leia texto abaixo).

Esta é uma etapa do projeto ‘Somos um povo que quer viver’, que busca divulgar e fortalecer movimentos populares (ouça áudio ao lado que Auro Maia enviou especialmente para o Noticiar.net).

 

Durante as visitas, são levados muito mais que alimentos, pois ali ele conversa com as pessoas em situação de rua, fortalecendo os vínculos comunitários e familiares. O ativista, que realiza em Passos um trabalho único e de iniciativa própria na mesma linha de padre Julio Lancellotti, em São Paulo, vê no projeto vários pontos positivos, principalmente o de restabelecer vínculos comunitários e familiares com as pessoas que eles já ajudaram a sair das ruas, assim como a convivência social desses cidadãos que, na maioria das vezes, são excluídos da sociedade.

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Para a reportagem, ele relata a história de Marina, nome fictício divulgado para não expor a identidade da pessoa e da família. “Levar o kit dos produtos na casa da Marina foi uma oportunidade de estar junto, apoiar e incentivar a sua reinserção social. Marina sofreu as piores formas de violência nas ruas e, graças ao nosso trabalho de convivência com o povo da rua, de levar a pessoa para reaproximação da família e encaminhar aos serviços públicos, hoje ela está muito bem. A família, o pai dela, os filhos, todos estão felizes com sua recuperação. O que ela me pediu agora foi para ajudá-la a tirar os documentos pessoais e conseguir um serviço”, conta.

OS NÚMEROS DO CENTRO POP

Em janeiro de 2022, o Centro Pop de Passos possui 107 cadastrados em situação de rua. Mas, como informou a coordenadora do espaço, Elizete Silveira Barros, a grande maioria, cerca de 60%, não adere aos serviços especializados.

 

Em fevereiro de 2021, o site da Prefeitura de Passos informou que o local somava 145 cadastrados, sendo 90% homens e 9% mulheres; 90% deles faziam uso de substâncias psicoativas.

 

Veja os serviços do Centro Pop neste link.

EndereçoCentro de Referência Especializado para População em Situação de Rua 
Rua Duque de Caxias, 46 

Telefone (35) 3521-8592

Polêmicas

O tema população de rua vem preocupando a sociedade há um bom tempo por todo país, como em São Paulo, onde houve aumento de 31% no número de pessoas vivendo pelas vias da capital em dois anos. Pandemia, crise econômica, aumento do desemprego, drogas são alguns fatores sociais que empurram muitas delas para as ruas, sem perspectivas no horizonte a curto prazo e, muitas vezes, vivendo da solidariedade do próximo.

 

Em Passos, a polêmica envolve críticas sobre o local onde esses cidadãos se alojam nas vias centrais até a transferência do Centro Pop Padre Léo, no bairro São Francisco, para a periferia do município. O local realiza atendimento especializado desse público numa parceria público-privada entre a Prefeitura de Passos e o Educandário Senhor Bom Jesus dos Passos.

“Muita pessoas julgam quem está na rua como se fossem bandidos ou vagabundos, mas poucas pessoas sentam para conversar, ouvir a história de cada um. Tenho visto acusações terríveis nas redes sociais e fico pensando como seria diferente se as pessoas que acusam, procurassem ajudar. As pessoas estão nas ruas porque perderam os vínculos familiares, o emprego ou por causa das drogas”, avalia Auro Maia.

 

Ele é contra transferir o Centro Pop para bairros mais afastados do centro da cidade. “Estamos vendo em Passos, por exemplo, a tentativa de transferir o Centro Pop para a periferia. Tentaram levar para a Penha, Coimbras, Novo Horizonte. No entanto, de acordo com as normas legais, o Centro Pop deve ser localizado em região onde existe o maior fluxo e circulação das pessoas em situação de rua. Ou seja, a maioria delas circula pelas praças, avenida da Moda e região central da cidade”, defende.

Para ele, todas as ações e iniciativas para dar uma vida mais digna às pessoas que vivem nas ruas, como a distribuição dos alimentos orgânicos, fortalecem o Movimento Nacional População de Rua. “Nas ruas, vemos muitos conflitos, mas também vemos que a própria sobrevivência exige certa organização para cuidar da vida, como a proteção do frio, a alimentação e até mesmo para conseguir dormir”. 

 

Ele explica que a dimensão do Projeto 'Somos  um povo que quer viver' é ampla, sempre buscando fortalecimento dos movimentos populares. “Movimentos como o MST e População de Rua existem porque vivemos numa sociedade na qual o que prevalece é a desigualdade social e as pessoas somente são vistas a partir do dinheiro e do lucro que elas produzem. As demais se tornam invisíveis e são obrigadas a se esconder nas periferias”, afirma Auro Maia.

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Legumes do Quilombo Campo Grande que foram distribuídos para 10 famílias de Passos no projeto em 2021

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COMO COMPRAR

Produtos orgânicos da Camponesa Gauií: Café 500g: R$ 20,00; Mel Silvestre 380g: R$ 15; Goiabada cascão 340g: R$ 8,00; Molho de Tomate Orgânico 360 ml: R$ 15,00. Pedidos no whatsapp: (35) 98472-9131

A opinião de quem já comprou

Professor Edson com os produtos Guaií

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O historiador e professor Edson Kallas comprou os produtos para incentivar os movimentos sociais na cidade e a agricultura familiar.

 

“Como seres humanos, não podemos perder nossa humanidade nunca. Não é, e não seria “humano” ignorar essas pessoas. Elas não são invisíveis. Estão aí. O que acontece muitas vezes é que acostumamos com o que vemos diariamente e ficamos “cegos”. Elas não estão morando na rua porque querem. São muitos e complexos os fatores que causaram isso, como desemprego seguido do alto custo de vida, alcoolismo, uso de drogas, conflitos familiares e por aí vai. É uma questão de saúde, de políticas públicas e sociais que o Estado deve assumir, não como esmola, mas como seu dever de reintegrar essas pessoas à sociedade”, diz o professor.

 

Ele destaca a qualidade dos produtos orgânicos e sem agrotóxicos. “Experimentei (gostei e recomendo) o mel, a goiabada e o molho de tomate, que é sensacional. Ansioso para experimentar o café”, completa.

O advogado Rodney Malveira Silva também se prontificou e adquiriu os produtos para incentivar os movimentos sociais, especialmente da Camponesa no Sul de Minas.

 

“É importante contribuir de alguma forma com os agricultores familiares do MST, principalmente do Acampamento Campo Grande, em Campo do Meio, que visitei há alguns anos, quando pude constatar a importância desse movimento social que muitas vezes é marginalizado. Produzem alimentos de qualidade, sem agrotóxico, saborosos e nutritivos, dando trabalho, renda e dignidade para centenas de famílias de trabalhadores, em latifúndios abandonados e improdutivos. O mais interessante de tudo, foi que pude constatar como a comunidade de Campo do Meio respeita e valoriza os agricultores do MST. Já sou freguês dos produtos há alguns anos e posso garantir que são de excepcional qualidade, repito, todos orgânicos. Detalhe relevante é que o MST é, atualmente, o maior produtor de orgânicos do país”, considera.

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Advogado Rodney já conhecia produtos Guaií

Festival quer despertar talentos invisíveis das ruas

Além de ajudar as famílias e pessoas em situação de rua, parte dos recursos obtidos com a venda dos produtos orgânicos será destinada para viabilizar a participação desse público de Passos no Festival Cultural da População de Rua – Talentos Invisíveis, agendado para 11 e 12 de março em Belo Horizonte. O projeto é uma parceria do Centro de Estudos Bíblicos (Cebi), do Movimento População de Rua, Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da Pastoral de Rua.

 

O ativista Auro Maia diz que há alguns artistas que vivem nas ruas de Passos trabalhando com artesanato e estão aptos a participar do evento. “Além da arrecadação de recursos para o transporte dessas pessoas de Passos a Belo Horizonte, nosso objetivo é despertar os talentos invisíveis, estimular o desenvolvimento da  cultura,  poesia, produção de textos, pintura, artesanato, enfim descobrir e fomentar os valores culturais que existem, mas se tornam invisíveis devido a pessoa estar nesta situação de rua”, explica.

 

O evento já divulgou a programação, que inclui saraus, apresentações culturais e musicais. Com isso, o movimento pretende identificar e motivar artistas em situação de rua e despertar atenção dos gestores de cultura para este público. Após o festival, deve ser elaborado um documentário sobre as formas de arte realizadas por esse público e promover exposições.

Ativista despertou para militância há mais de 40 anos

O ativista Auro Soares Maia vive a militância desde o final da década de 1970, quando freqüentou o grupo de jovens Maranatha, na paróquia Matriz em Passos, e estudou a Carta de Puebla “Opção preferencial pelos pobres” e por uma igreja mais próxima do Evangelho. Ali, o então jovem manifestou um interesse maior em prol dos marginalizados e excluídos.

 

Na década de 1980, ele produziu um filme sobre o mapa da fome e a miséria em Passos, inspirado na Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria, campanha do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. “Para mim, este filme foi uma aula, pois mostrou que não existe ninguém melhor para mostrar e denunciar a pobreza e a miséria do que aqueles que vivem a própria situação. Por isso, hoje defendo a organização e o fortalecimento do Movimento Nacional População de Rua para que tenham vez e voz nas decisões e na elaboração de políticas públicas”, conta.

Já na década de 1990, ele participou ativamente da criação da cooperativa dos catadores de materiais recicláveis na cidade quando exerceu o mandato popular como vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT), entre 1996 e 2004, e integrou o Fórum Lixo e Cidadania, apoiando um segmento social considerado, até então, inexistente no município

Representantes do Movimento População de Rua, MST e das CEBs e do Centro de Estudos Bíblicos

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A aproximação das pessoas em situação de rua também ocorreu nessa época, principalmente em 2004, quando da organização do Movimento Nacional População de Rua, com Auro abraçando a causa em Passos. Naquele ano, ocorreu a barbárie conhecida como chacina da Praça da Sé em São Paulo (SP), que vitimou sete moradores de rua e originou outros ataques semelhantes em diversos pontos do país. Nacionalmente, um dos nomes mais conhecidos dessa mobilização é o padre Júlio Lancellotti, que atua na capital paulista.

“Depois, compondo a equipe da Secretaria Municipal de Assistência Social de Passos, a convivência com o povo de rua se ampliou. Hoje, acredito que não temos dados concretos sobre o número de pessoas em situação de rua na cidade. Nos últimos anos, muitas famílias e pessoas vivem nas ruas em conseqüência do desmonte das políticas públicas de saúde, assistência social, habitação”, alerta.   

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