CULTURA

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O guardião do folclore de Passos

Reportagem e fotos: Keuly Vianney

n.noticiar@gmail.com

21/08/2022

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Neste 22 de agosto, quando se comemora o Dia do Folclore, o Noticiar.net ouviu um dos maiores folcloristas de Passos, considerado um dos guardiões das manifestações populares no Sul de Minas. Atuando há mais de 50 anos na área, Eurípedes Gaspar de Almeida ainda mantém viva na alma a ideia de preservação do conjunto de expressões culturais do povo transmitidas entre gerações, principalmente na área da dança, costumes, festas e eventos folclóricos, como Folias de Reis, Carnaval, Cavalhada e Reisado. 


Por várias décadas, o professor Eurípedes, como é conhecido em Passos, esteve à frente de festas e eventos folclóricos, lutando para que a chama da cultura popular ainda permaneça acesa, pois o folclore engloba aspectos da identidade nacional. 

Não fosse pelo trabalho dele, Passos não receberia o título de capital mineira do folclore, concedido em outubro de 1999 pela Federação do Reisado do Estado do Rio de Janeiro (Ferja). Ou não teria um representante na criação da Federação das Folias de Reis do Estados de Minas Gerais, encontro realizado em Belo Horizonte no qual foi eleito secretário e presidente em 1999. 


E quem não se lembra das acirradas disputas da fantasia mais luxuosa nos tempos áureos do Carnaval passense? Um delas, com certeza, quem trajava era o professor Eurípedes.  

Ele é natural de Delfinópolis. Chegou em Passos ainda menino no começo nos anos 1950 com a família, depois que o pai, o maestro Abiud de Almeida, foi convidado a ensinar música e formar as primeiras bandas e fanfarras da cidade. Com a culltura vindo de berço,  nascia ali sua paixão pelas manifestações folclóricas, possuindo até  hoje raridades do folclore municipal, que poderiam muito bem estar num museu de cultura popular, como bandeiras de irmandades, vestimentas, caixas de música e outras peças folclóricas herdadas do pai músico.   


Leia abaixo entrevista com o professor Eurípedes, em que ele conta um pouco da sua história e avalia a situação do folclore nos dias de hoje.  

Noticiar: Há quanto tempo você atua no folclore de Passos e região? 
Prof. Eurípedes:
Em 1950, mudamos de Delfinópolis para Passos, trazidos por Breno Soares Maia, para o papai ensinar música na Liga Operária, formar a Banda Santa Cecília e a primeira Fanfarra de Passos no Colégio de Passos. Na reunião com toda a diretoria da Liga, papai foi apresentado a todos associados, carnavalescos, músicos, congadeiros, moçambiqueiros, foliões de Reis. Foi aí que tive contato com os folcloristas da cidade. Quando foi fundada a Fundação de Ensino Superior de Passos, a professora de antropologia Maria Alice iniciou um levantamento das manifestações folclóricas em Passos. Junto a meu pai, me imcubiram de tal tarefa. Concluíram que muitas ternos não estavam participando da festa de final de ano devido a problemas financeiros. Naquela época, os Ternos de Congos, Moçambiques, Folias de Reis e outras manifestações eram ajudadas pelos fazendeiros. Com o passar do tempo, e devido também às dificuldades dos fazendeiros, começou a ficar difícil a sobrevivência dos festejos natalinos. Com falecimento de muitos capitães, seus filhos e a família não continuaram a tradição dos pais. Os primeiros encontros de Congos, Moçambiques, Folias de Reis, Consciência Negra, 13 de Maio e Semana da Cultura Afrobrasileira foram iniciados em Passos. Também orientei cidades vizinhas e de outros Estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, a promoverem seus encontros, como em  Aparecida do Norte (SP). 

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Fotos raras de Reisado e Reinados do São Benedito e Nossa Senhora do Rosário,  em Passos / Fotos: Arquivo Pessoal

Noticiar: Dessa época, qual outro fato que você considera relevante para o folclore municipal?  
Prof. Eurípedes:
A criação da APDF em 22 de agosto de 1971. No Dia Universal do Folclore, às 10h, realizou-se no Passos Clube a reunião a fim de fazer os primeiros estudos para iniciar a fundação da associação. Lembro bem que criou-se  uma comissão presidida por Márcio Maia e secretariada por Josapha Moraes, composta pelos senhores Breno Maia, Lourival Severiano da Silva, Antônio Domingos Pereira, José Santos Fortuna Neves, Climério Castilho de Jesus, representantes dos Congos e Moçambiques. Muitas pessoas importantes da cidade compareceram na reunião e, assim, foi lançada com entusiasmo e coragem a semente dessa magnífica idéia de criação da associação para criar o estatuto dentro dos trâmites legais. De 22 a 29 de agosto desse mesmo ano, foi realizada a 1ª Semana do Folclore de Passos, organizada pela Faculdade de Filosofia de Passos, Rádio Sociedade de Passos e prefeitura. 

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Professor Eurípedes com o palhaço da Folia de Reis e músicos folcloristas / Foto: Arquivo Pessoal 

Noticiar: Você se considera um guardião do folclore de Passos? O que ainda guarda com significado histórico e cultural? 
Prof. Eurípedes:
Me considero não só guardião do folclore em Passos, mas também de todas manifestações folclóricas de Minas Gerais. Como membro  honorário dos Capitães de Drummond, procuro ser fiel servidor às causas do folclore porque carrego a minha ancestralidade. Herdei de meu pai todas as patentes que ele tinha, muitas peças, roupas e artigos relevantes para história de Passos. Cito as Bandeiras dos Ternos, Moçambiques e Folias de Reis mais antigas do nosso folclore; bastões com anéis das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário, fundada em julho de 1873, e de São Benedito, fundada em junho de 1889; espada de comandante do meu pai; bastão de mordão geral perpétuo do Reinado e Reisado; faixa de presidente com decorações e emblemas; as Três Coroas dos Reis Magos, vindas da Alemanha; folhetos e programas de encontros, festas, convites, troféus, diplomas, fotos e vídeos; e taças de alguns torneios realizados na Liga Operária. Tenho muito orgulho dos títulos que recebi de instituições importantes do Brasil e do exterior. Por décadas, organizei a Cavalhada de Passos. 

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Bandeiras de irmandades são as mais antigas do folclore passense

Máscaras de reisados e vestimentas folclóricas do acervo de Eurípedes 

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Instrumentais antigos produzidos em madeira

Noticiar: Como você vê atualmente o folclore em Passos? As manifestações estão sendo preservadas? 
Prof. Eurípedes:
Muito pouco está sendo preservado. Reinado e Reisado sobrevivem às duras penas. A modernidade é contraditória a tudo que é folclore mas, ao mesmo tempo, o antigo nem sempre é folclore. O folclore é, precisamente, um saber popular, FOLK-LORE, como bem ensinou o teórico inglês William John Thoms, que criou o neologismo do folclore no século 19. O resgate e preservação das tradições precisam ser normas e objetivos do folclore. É preciso manter o toque de caixas, cantigas, danças, vestimentas e o respeito à ancestralidade. Os embaixadores precisam cantar mais as profecias, organizar e promover as Folias de Reis antigas e a cantiga mineira, seguir os regulamentos das Folias de Reis. A beleza do folclore é a manutenção da tradição e preservação. Como as Folias de Reis são consideradas folclore milenar, quanto mais fiel às origens, mais é apreciado pelos turistas. 

Noticiar: O que é preciso fazer para que essas manifestações não sejam extintas? Se não houver essa preservação do folclore, o que pode acontecer com o folclore na cidade? 
Prof. Eurípedes:
Todos setores precisam ter conhecimento de suas funções. De urgência, é preciso conscientizar o povo, as autoridades e todos segmentos da sociedade para conhecerem o folclore, amá-lo e tê-lo no coração. Preservar o folclore é preservar e resgatar nossa identidade. Se não preservarmos nossas origens, seremos alheios à nossa ancestralidade. Urgem medidas rápidas e ações a curto prazo. A Igreja precisa fazer o papel que lhe cabe. Políticas públicas precisam  cuidar, zelar do patrimônio cultural e popular. A prefeitura deve dar mais apoio logístico, alimentação e tudo que for necessário para o brilho das festas folclóricas de Passos para não deixá-las morrer. 

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Eurípedes trajado com roupa do Reisado e espada herdada do pai

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