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Em NY, médica passense conta como está rotina no pós-vacina

Reportagem e edição: Keuly Vianney

n.noticiar@gmail.com

15/05/2021

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A retomada gradual da rotina após a vacinação contra a Covid-19, um sonho entre os brasileiros, já é realidade para uma passense que vive em Nova York há 2 anos. A médica Luciana Gontijo de Oliveira Clark voltou a freqüentar restaurantes e bares, passear nos parques e visitar museus com amigos, algo muito esperado desde o início da pandemia.

Luciana e o marido, o também médico Otávio Clark, mudaram-se para Nova York em janeiro de 2019 para um período sabático. Um ano depois, viveram as fases mais duras de isolamento e lockdown da Big Apple, mas agora vêem de perto o relaxamento das medidas que propiciam levar uma vida mais próxima do novo normal.

“Aqui em Nova York é incrível o quanto já melhorou. Desde o ano passado, a prefeitura autorizou os restaurantes a colocarem mesas nas calçadas, uma prática antes proibida. Agora que a situação já está mais controlada, é possível ver as pessoas retornando à rotina, jantando com os amigos, fazendo piqueniques nos parques, jogando basquete nas quadras públicas”, conta a passense.

Luciana e Otávio passeando no Jardim Botânico no último domingo; eles tiraram máscaras para a selfie

E a experiência só está sendo possível depois deles se imunizarem contra o novo coronavírus: ela tomou duas doses da Moderna, enquanto o marido se vacinou com a Pfizer. Apesar de ter sido considerado o epicentro mundial da pandemia em 2020, os Estados Unidos apostaram na vacinação da população, somando 236 milhões de doses aplicadas e 117 milhões de pessoas totalmente vacinadas.

Nos últimos meses, o país viu reduzir o número de casos e mortes por Covid-19 e as vacinas já estão disponíveis para adolescentes e, nesta semana, para crianças acima dos 12 anos. Muito diferente do Brasil, onde a imunização ainda é para o grupo prioritário e as vidas perdidas pela doença chegam a mais de 2 mil/dia. Em abril, foram mais de 3,5 mil mortes diárias. 

Com esse cenário favorável, o governo americano permitiu relaxamento de algumas restrições, como o uso opcional de máscaras ao ar livre para os vacinados, abertura do comércio, restaurantes e museus. Veja fotos na galeria abaixo que Luciana enviou ao Noticiar.net (clique nas imagens para ler as legendas). 

 “Nas últimas semanas, o Centro de Controle de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos soltou normativas que pessoas completamente vacinadas já podem sair sem máscara em espaços abertos, ao ar livre, mas longe de aglomerações. Dentro de qualquer estabelecimento só é permitida a entrada se você estiver usando máscara. E mesmo se você estiver jantando no restaurante e precisar ir ao toalete, ao se levantar deve imediatamente colocar a máscara”, explica Luciana.

O casal mora no Financial District, na ponta da ilha de Manhattan e a cerca de dois quarteirões de onde ficavam as torres gêmeas, um local de grande circulação. Para a médica passense, a vacina é a única solução possível para conter a pandemia e retornar a uma vida relativamente normal.

“Aqui nos Estados Unidos, a situação está melhorando porque 45% da população já recebeu, pelo menos, uma dose de vacina e 35% já estão completamente vacinados. Se você quiser se vacinar agora, basta entrar em qualquer farmácia da rede CVS e fazer um cadastro. É rápido, simples e gratuito”, diz Luciana. “No Brasil, 14% da população recebeu uma dose e apenas 7% estão completamente vacinados. É muito pouco e é muito lento. Não existe mágica: a vacina é a única possibilidade de colocar um ponto final nessa pandemia”, complementa.

Como médica e cidadã, Luciana fica muito indignada com a chance desperdiçada pelo governo brasileiro em não se preparar para o enfrentamento da pandemia, politizando o vírus e desmerecendo a ciência.

“É inconcebível que a situação tenha chegado onde chegou e isso está custando muito caro agora. Perdeu-se (e ainda perde-se) muito tempo com “tratamentos” comprovadamente ineficazes e deixou-se de investir na educação da população, no incentivo ao uso de máscaras, no respeito ao distanciamento social, na importância das medidas de higiene. E o mais triste, perdeu-se a oportunidade de adquirir as vacinas que já estavam em desenvolvimento meses antes. O Brasil sempre foi um exemplo mundial em campanhas de vacinação. Nós deveríamos estar dando uma aula ao resto do mundo sobre como fazer vacinação em massa”, afirma.

A pedido da reportagem, ela fez uma projeção para o Brasil nos próximos dias: deve-se demorar de seis a oito semanas para retomar o patamar de 1 mil mortes diárias. Nesta semana, a média ficou em 2,3 mil mortes/dia.

Vacinação lenta no Brasil gera preocupação

Apesar de estar restabelecendo seu dia a dia em Nova York, a passense Luciana Gontijo vê com preocupação a situação do Brasil diante da pandemia. Mesmo com alguns familiares vacinados, a médica ressalta que a campanha de imunização brasileira está lenta com a falta de vacinas.

“É bom manter o bom senso, evitar aglomerações, continuar usando máscaras e tomando as medidas de higiene até que uma parcela maior da população esteja completamente vacinada”, alerta.

No Brasil, a mãe e a sogra de Luciana, que moram em Passos (MG) e Coruripe (AL) respectivamente, já tomaram duas doses da Coronavac e o pai se imunizou com a primeira dose da AstraZeneca. Outros familiares também se vacinaram com a Coronavac.

A médica alerta que a vacina reduz as chances da pessoa evoluir para caso grave ou moderado de Covid-19, mas não elimina completamente os riscos. Conforme ela, mesmo os infectados que desenvolveram forma leve e os assintomáticos do novo coronavírus podem desenvolver sequelas tardias, como fadiga, dificuldades respiratórias, problemas cardíacos e nevoeiro mental, que inclui sensação de esquecimento, falta de concentração e foco.

“Estou escrevendo um artigo sobre nevoeiro mental pós-Covid baseado em relatos de pacientes”, conta Luciana, que é graduada em medicina e mestre em jornalismo científico, ambos pela Universidade de Campinas (Unicamp). “Vacina não é sinônimo de autorização para aglomerar! A porcentagem de pessoas não vacinadas no Brasil é muito grande e as novas cepas circulantes, ainda que sejam cobertas pelas vacinas, são mais infecciosas e mais virulentas. As Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) estão cheias de pacientes jovens, algo que não víamos no ano passado”, lembra.

A oncologista frisa que a Covid-19 é uma doença nova, traiçoeira e que ainda precisa de muitos estudos e pesquisas científicas. Para ela, o novo normal que começa aparecer agora é o resultado do avanço da vacinação, como as experiências dos Estados Unidos e Israel.

“Quanto mais pessoas se vacinarem, melhores as nossas chances de retornar a algo semelhante a uma vida normal. Novas ondas podem ocorrer, novas mutações podem surgir, principalmente naqueles países onde a vacinação não está avançando, mas nós precisamos ter fé e fazer a nossa parte para reduzir a transmissão do vírus e desafogar os sistemas de saúde. A Índia é o exemplo vivo de que o que está ruim pode, sim, ficar ainda pior. Façamos de tudo para não repetir essa história, pois os números estão virando nomes e já tivemos perdas demais”, afirma.

A médica se confraternizou com os colegas da área de saúde dos hospitais de Passos, principalmente da Santa Casa de Misericórdia de Passos, destacando que os profissionais estão se dedicando incansavelmente para salvar vidas.

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Praça do Oculus, próximo ao World Trade Center, ficou sem pedestres em março de 2020

Um relato esclarecedor do lockdown

A passense Luciana Gontijo está feliz pelo atual momento que vive os Estados Unidos. Mas nem tudo foram flores na terra do Tio Sam. Leia abaixo relato esclarecedor e fotos que a médica enviou ao Noticiar.net sobre o período de lockdown, pouco antes de Nova York se transformar no epicentro do novo coronavírus no mundo:

 

“Eu havia ido para o Brasil no final de 2019 devido a um problema de saúde do meu pai. Quando ele se recuperou, eu e o Otávio precisamos voltar para os Estados Unidos. Chegamos de volta em Nova York em 14 de fevereiro de 2020. No dia de 20 de março, foi decretado o lockdown na cidade.

Imediatamente fechou tudo, as ruas ficaram desertas e o silêncio só era quebrado pelo barulho das sirenes de ambulância cortando as ruas dia e noite. Foi surreal. Parecia um cenário de filme de catástrofe de Hollywood. Desde o começo nós combinamos que iríamos sair de casa uma vez por dia para caminhar por uma ou duas horas, o que era autorizado pelo governo.

Foi uma maneira de manter a sanidade mental no meio do caos e, por outro lado, nos proporcionou ver a cidade como eu acredito que ela nunca mais será vista: completamente vazia.

Foi muito difícil no começo, pois você não conseguia encontrar máscaras nem álcool gel para comprar em nenhum lugar. Lembro que consegui comprar o último termômetro da farmácia em frente de casa e conseguimos um oxímetro de dedo pela Internet.

Cada vez que a gente ia ao supermercado, era um pânico, medo de se contaminar, de ficar doente, de precisar de um leito no hospital e não conseguir. As UTIs começaram a chegar ao limite e os caminhões frigoríficos ficavam em frente aos hospitais para receber os corpos que não cabiam mais nos necrotérios.

Quinta Avenida em março de 2020; Nova York vazia como nunca antes imaginada

Ponte do Brooklyn também se esvaziou devido à pandemia

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Ficávamos ligados nas notícias o dia todo e logo no começo da pandemia chegamos a deixar por escrito um para outro o que deveria ser feito caso o pior acontecesse.

Nessa época, março-abril-maio do ano passado a gente tentava alertar as famílias, os amigos sobre o que estava acontecendo, que a doença iria chegar ao Brasil com a mesma força, mas as pessoas duvidavam e achavam que estávamos exagerando. Então, enquanto a gente se isolava aqui, assistia apavorado as aglomerações acontecendo aí. Essa parte foi muito difícil, porque chegou um ponto em que fechou o espaço aéreo e a gente não podia mais ir para o Brasil (se fosse, não poderia voltar para os Estados Unidos).”

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