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Fotos: Divulgação

Após ganhar “25 mulheres na Ciência”, passense

se dedica à pesquisa sobre Doença de Chagas

Reportagem e edição: Keuly Vianney

n.noticiar@gmail.com

23/02/2022

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Após o êxtase de ganhar o prêmio “25 Mulheres na Ciência: América Latina” promovido pela multinacional 3M neste mês, a passense Gabriela Venturini da Silva volta seus esforços e trabalho nos laboratórios dos Estados Unidos para continuar sua pesquisa sobre a “Identificação de Marcadores de Desenvolvimento da Doença de Chagas”. Iniciado em 2016, esse estudo científico também visa descobrir possibilidades de reduzir enfermidades cardiovasculares, mais precisamente um exame ou vacina para o mal transmitido pelo Trypanossoma cruzi, comum em países latinoamericanos, incluindo no Brasil e Sul de Minas.

Gabriela ficou em evidência nas últimas semanas na mídia local depois de ser selecionada na segunda edição do prêmio “25 Mulheres na Ciência”, que premiou cientistas da América Latina, uma conquista para poucos e alcançada com muito esforço e dedicação na área. Ela foi indicada por um pesquisa sobre isquemia do coração para facilitar diagnósticos de infarto.

Atualmente, ela mora em Boston, onde está desde 2019 desenvolvendo seu trabalho científico. Ouça abaixo áudio da cientista Gabriela enviado especialmente para o Noticiar.net, explicando sobre sua atual linha de pesquisa, com dados sobre a Doença de Chagas na América Latina, incluindo a incidência na região da Serra da Canastra. Esse estudo só esta sendo possível pela parceria com bolsas de pesquisa científica da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e do Brasil.

“No geral, as pesquisas são muito longas. A gente já identificou um perfil de resposta imune específico de pacientes que desenvolvem os sintomas cardíacos da Doença de Chagas, utilizando amostras de mais de 2000 pacientes. Agora, estamos refinando esse perfil, chegando a um alvo mais específico ou mais sensível para ter um candidato a desenvolvimento de vacina. Acredito que em mais 2 ou 3 anos teremos dados mais completos para iniciar o desenvolvimento de um exame ou de uma potencial vacina”, conta.

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Gabriela explica que sempre realiza várias pesquisas paralelas no laboratório dentro de uma mesma temática. Desde o segundo ano da Faculdade de Biologia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ela optou por pesquisar “Marcadores de Diagnóstico e Predição de Doenças Cardiovasculares em Diferentes Situações”. Na indicação do “25 Mulheres na Ciência”, foi reconhecido o estudo científico de descobrimento de uma molécula marcadora de isquemia no coração, o que pode identificar, ou prever, infartos mais rapidamente.

“Essa foi uma pesquisa mais madura, já em fases mais avançadas, mais próximo do desenvolvimento de um produto. Mas neste prêmio, foi avaliado mais do que a pesquisa apenas, pois também envolveu a análise da trajetória durante toda nossa carreira. E durante minha carreira, eu sempre tentei ajudar a comunidade ao meu redor e os meus pares dentro do laboratório, realizei muitos trabalhos de extensão, levando a ciência para o público de maneira geral. Além disso, contribuí para a formação de outras cientistas, criei um grupo de pesquisa dentro do laboratório que eu trabalhava no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, desenvolvi projetos envolvendo vários departamentos da universidade e setor privado, atuo na conexão de cientistas brasileiros em projetos aqui em Boston, entre vários outros. A minha trajetória me trouxe o prêmio, e não apenas os resultados da pesquisa em si”, avalia.

Representatividade feminina

Ela destaca que o prêmio conquistado significa muito mais que mero reconhecimento científico pelo seu trabalho, mas também visibilidade e representatividade para o sexo feminino na ciência. “Ainda que muita coisa precise ser feita para que as mulheres sejam justamente reconhecidas e respeitadas em ciência, esse é um dos caminhos. Fazer ciência, na atual conjuntura, sendo mulher é um ato de resistência. Nós, mulheres, ainda somos minoria entre todos os profissionais de ciência, ainda somos extremamente subrepresentadas nos principais cargos de liderança, ainda não estamos nas cadeiras que guiam as principais decisões. Somos diariamente subestimadas em relação ao nosso conhecimento, interrompidas durante nossas falas e questionadas do mérito dos nossos feitos e realizações. A situação é ainda mais desigual quando se trata de mulheres pretas, mulheres nortistas e nordestinas, e mulheres que trabalham nas áreas de ciências exatas. Iniciativas como essa são muito importantes para começar a romper esses padrões”, explica.

 

Outro ponto positivo sobre a repercussão do prêmio evidenciado por ela é que jornais e as pessoas começaram a discutir mais sobre ciência, principalmente num momento em que o negacionismo desacredita a força científica. Gabriela antevê o futuro e acredita que novas gerações de estudantes podem ser influenciadas por exemplos como o dela e de outras mulheres cientistas.  

“Quero que as meninas da nova geração se sintam mais e mais representadas, que elas olhem para pessoas “premiadas” e com trajetórias ditas de sucesso e se reconheçam, acreditem que também possam ser elas mesmas no futuro. Que a referência de cientista na cabeça dessa geração não seja de uma pessoa do sexo masculino com padrão europeu, como foi a da minha geração. Mas sim de uma mulher da mesma cor que elas, com o mesmo cabelo e corpo que elas, falando a mesma língua que elas falam. Acho que a importância desse prêmio está aí, trazer rostos para esses personagens que a gente acha que está distante da nossa realidade, mas pode estar com você na fila do mercado”, afirma.

Antenada no atual contexto político e socioeconômico do Brasil, Gabriela também aproveita o momento para discutir e divulgar a ciência como um todo, seja alertando sobre assuntos urgentes na saúde e meio ambiente, incluindo o “pacote do veneno”, aprovado na última semana em Brasília que permite uso indiscriminado de agrotóxicos, ou no ensino e a redução dos investimentos científicos no país. 

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Cientista Gabriela em apresentação em inglês sobre pesquisa da Doença de Chagas 

“Além disso, quero que as pessoas tenham mais proximidade e passem a conhecer mais a carreira de um cientista, como precisa de dedicação e esforço, e valorizem mais o conhecimento e a educação. Quero principalmente alavancar um projeto paralelo que já venho desenvolvendo que busca dar mais estrutura e suporte na formação de alunos de ciência no Brasil, tanto na área financeira, como no contexto profissional, científico e social”, conta.

 

Família

Gabriela Venturini é passense de coração, mas nasceu em Furnas, na época em que o acampamento de Furnas Centrais Elétricas pertencia à Alpinópolis. É filha da professora psicopedagoga Margarida Venturini da Silva e do engenheiro eletricista e inventor Walter Venturini da Silva, que foram seus grandes influenciadores e incentivadores. Depois, a família mudou-se para Passos, onde ficou até ser aprovada no vestibular e seguir a carreira de cientista.

Ela conta que desde pequena gostava de passear na natureza em Furnas, prática comum em família. “Eu sempre quis descobrir algo novo, desde que me entendo por gente. Eu nasci em Furnas, cercada de muita natureza e acho que esse foi o grande gatilho para escolha da carreira. Meus pais sempre foram muito questionadores e incentivadores, e aproveitaram essa condição muito peculiar de criação para nos atiçar a curiosidade, tanto que três dos cinco filhos se envolveram com ciência de alguma forma”, lembra.

Quando criança, o incentivo também veio por meio de leituras e programas televisivos de ciências, visita a laboratórios e coleção de reportagens científicas divulgadas em jornais. “Na escola, sempre amei as feiras de ciência e, já aos 8 anos, ganhei, junto com meu grupo, o primeiro lugar em feira de ciências na Escola Estadual de Furnas. Depois, foram várias feiras premiadas. Por volta dos meus 9 e 10 anos, quando anunciaram a clonagem da ovelha Dolly, eu tive certeza que era isso que eu queria fazer. As aulas de ciências, biologia e química eram as minhas preferidas, principalmente aquelas que envolviam experimentos práticos. Durante o ensino médio, a minha escola fez parceria com a Uemg em Passos e utilizávamos o laboratório da faculdade para as aulas práticas, o que foi muito inspirador”, confessa.

Após todo esse incentivo, foi fácil despertar seu talento e Gabriela optou em ser bióloga, passando no vestibular da UFU. Continuando na carreira acadêmica, tornou-se mestre em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), onde também formou-se doutora em cardiologia. O pós-doutorado foi pela Faculdade de Medicina de Harvard em 2019, onde hoje continua estudando no pós-doc.

Na sua carreira, ela destaca os incentivos de bolsas de pesquisas vindas do governo brasileiro e americano. “Toda minha carreira é fruto, além do investimento e suporte da minha família, de educação superior pública e bolsas de fomento à pesquisa. Por isso, agradeço todas as agências de fomento que me financiaram desde meu primeiro ano como aluna de iniciação científica: Capes, CNPQ, Fapesp, National Institute Health e American Heart Institute. Sem o financiamento público, eu não teria conseguido chegar tão longe”, finaliza.

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