HISTÓRIA


Foto: Acervo Carmelo
Carmelo São José: 75 anos de oração e clausura em Passos
O Carmelo São José de Passos comemora seu Jubileu de Brilhante no próximo dia 3 de abril, completando 75 anos de fundação com a chegada das carmelitas descalças que se estabeleceram na cidade do Sul de Minas Gerais em 1951. Desde então, as irmãs se tornaram referência na vida de oração e clausura, além da famosa Capela sediada no bairro de mesmo nome, com louvor a Santa Teresinha de Jesus e a São José.
Atualmente, a oração continua prioridade das 16 irmãs presentes no Carmelo neste ano comemorativo, estando à frente da Ordem a priora irmã Maria Wilza da Santíssima Trindade. “Oramos pela paz no mundo, no Brasil e no coração de cada pessoa. Houve muitas mudanças sociais durante estes 75 anos devido à realidade do mundo, às quais tivemos que nos adaptar, mas a nossa essência não mudou”, diz a sub-priora do Carmelo em Passos e responsável pela comunicação do mosteiro, irmã Maria Elizabeth da Trindade, que é carmelita desde janeiro de 1981 e completa 45 anos de vida religiosa em 2026.
Pelo fato da manutenção da clausura desde sua inauguração em 1951, ainda há muita curiosidade sobre como é a vida dentro dos muros do convento. A vida contemplativa das religiosas, entretanto, se traduz em muita oração, silêncio e fé. No vídeo abaixo, a sub-priora Elizabeth explica como é o dia a dia das religiosas no Carmelo de Passos, que mantiveram a tradição das carmelitas iniciada no século 16:
Nesta reportagem, confira alguns fatos históricos e curiosidades sobre o Carmelo São José de Passos:
Origem
O Carmelo São José integra a Ordem Religiosa fundada por Santa Teresa de Jesus (1515-1582), a conhecida Teresa D’Ávila, na Espanha, em 1562. Ela é considerada a reformadora da Ordem do Carmelo, unida à Ordem do Carmo, de origem católica e raízes no Monte Carmelo do século 12, hoje Palestina, e inspiração no profeta Elias. A religiosa fundou a Ordem das Carmelitas Descalças, que se espalhou por várias partes do mundo com a vida dedicada à oração, silêncio e clausura, intercedendo pela igreja e pelo mundo, a partir de três votos: pobreza, castidade e obediência a Deus.
Conforme irmã Elizabeth, são 58 Carmelos no Brasil, sendo 12 deles em Minas Gerais. No Sul de Minas, as carmelitas descalças estão em três cidades apenas: Passos, Pouso Alegre e Três Pontas.
Irmã Elizabeth lembra que a irmã Maria Angélica, nascida em Cássia, foi a incentivadora em trazer o Carmelo à região em 1951, juntamente com monsenhor Messias Bragança. “Ela era sobrinha do Barão de Passos e solicitou ao então bispo Dom Hugo Bressane, de Guaxupé, a vinda do Carmelo para Cássia, mas o bispo acreditava que a cidade não suportaria a Ordem e Passos seria mais viável”, lembra.

Estátua de Santa Teresa de Jesus, homenagem à mãe e fundadora do Carrmelo no mundo


Irmã Nazaré, incentivadora em trazer carmelitas à região com ajuda de Monsenhor Messias Bragança/ Fotos Acervo Carmelo

Vieram seis irmãs de Mogi das Cruzes (SP), que foram transferidas para Passos a fim de fundar o novo Carmelo: a priora madre Maria Nazaré e as irmãs Bernadete, Maria Ângela, Nazaré, Teresinha e Isabel. Num primeiro momento, as religiosas se estabeleceram numa casa provisória na rua Cristiano Stockler, centro da cidade, onde fundaram o Carmelo de Passos em 3 de abril de 1951 e ficaram durante a construção do prédio oficial por seis anos.
Entretanto, há um fato interessante sobre a data de fundação. “A primeira data escolhida para fundar o Carmelo de Passos foi 19 de março, por ser o dia de comemoração a São José. Porém, neste período era Semana Santa naquele ano e o dia de inauguração foi transferido para 3 de abril”, conta a sub-priora.
Primeiras irmãs carmelitas a chegarem a Passos na década de 1950 para fundar o Carmelo; elas ficaram numa casa provisória na rua Cristiano Stockler (ao lado) / Fotos Acervo Carmelo

A construção e inauguração
Enquanto construía-se o prédio com ajuda dos fiéis, as carmelitas mantiveram sua vida de clausura e oração e, principalmente, trabalhando com a venda de artes manuais, bordados e apoio das famílias da cidade que se revezavam com os recursos de manutenção das religiosas.
A fundação oficial do novo prédio aconteceu em 1º de janeiro de 1957 numa área equivalente a meio alqueire, de cerca de 20 mil m², onde construiu-se a estrutura de mosteiro carmelita mantida originalmente até nos dias atuais.


Construção da sede do Carmelo ainda sem a capela à esquerda; local ainda não tinha vizinhança
Foto histórica do dia da inauguração do Carmelo, com participação de dom Inácio João DalMonte / Fotos Acervo Carmelo
Capela tem fachada
simples e assimétrica

A capela ainda estava em construção e só foi inaugurada em 1960 com capacidade para 200 fiéis, como informou irmã Elizabeth. De arquitetura simples, seguindo a filosofia das próprias irmãs, a pequena igreja possui uma fachada assimétrica e no seu interior destacam-se vitrais coloridos, colunas e um grande Jesus crucificado atrás do altar.


Interior da Capela se destaca com pilares, vitrais coloridos e a grande cruz atrás do altar
Porta fechada do Coro, onde irmãs ficam nas celebrações separada dos fiéis

Vista do Coro quando a porta está aberta; elas sentam conforme hierarquia carmelita, com a prioria e sub-priora ao centro / Foto: Acervo Carmelo

“Desde que foi construído, temos tudo que necessitamos na estrutura própria de mosteiro carmelita, com quartos e espaço de oficinas individuais, refeitório, coro para oração comunitária, jardins e a horta, onde plantamos verduras, legumes e frutas para nosso sustento”, diz a sub-priora. “Na década de 1990, precisou ser construída uma ala para enfermaria a fim de atender as irmãs mais idosas aqui mesmo, sem necessidade de sair para hospital”, completa.
Os jardins bem cuidados com variadas plantas, árvores e flores são outra marca registrada do convento carmelita. Na área de entrada, as pessoas já podem ter a ideia da importância do espaço verde cuidado pelas irmãs, tendo bancos para momentos de reflexão, uma gruta dedicada à Nossa Senhora e uma estátua de santa Teresa de Jesus, fundadora e mãe do Carmelo, ali colocada em homenagem ao 5º centenário de seu nascimento em 2015. Veja série de fotos abaixo:




Fotos do Interior do mosteiro carmelitana, que poucas pessoas têm acesso / Fotos Acervo Carmelo

Vista do jardim de entrada, com a gruta dedicada à Nossa Senhora ao fundo (no detalhe)
Banco no jardim na entrada do Carmelo, onde visitante pode sentar para orar e admirar flores e plantas
As hóstias e o artesanato
Desde que chegaram a Passos, as irmãs carmelitas se dedicam aos trabalhos manuais, como a produção de peças artesanato, e também as famosas hóstias, direcionadas para as missas que elas participavam. Depois, as religiosas começaram a produzir as sagradas partículas do Corpo de Cristo para outras paróquias, de acordo com irmã Elizabeth.
“A produção das hóstias foi ampliada depois que o Carmelo ganhou uma máquina vinda da Espanha há mais de 50 anos. Hoje, temos máquinas automáticas e estamos comprando máquinas novas para aumentar a fabricação e melhorar a qualidade das hóstias”, adianta.


Peças artesanais para venda produzidas pelas próprias carmelitas
As próprias irmãs fazem as hóstias nas oficinas no Carmelo durante quatro dias da semana, de segunda à quarta-feira. As partículas redondinhas levam apenas dois ingredientes, farinha e água, chegando a uma produção de 20 mil unidades/dia. No início, era tudo manual, mas elas conseguiram a façanha de fabricar 30 mil hóstias diárias na década de 1990, quando enviavam para a diocese de Guaxupé distribuir a outras paróquias e igrejas.
Na entrada do Carmelo, há um espaço onde estão peças artesanais para comercialização, com as velas decoradas sendo o carro-chefe das vendas atualmente. Há muitos tamanhos de velas, desde as menores até as de 1m de altura e em vários motivos religiosos, como para missas, círio pascal, promessas, procissão, crisma, devocionais e até decorativas para o Natal. Tudo feito artesanalmente pelas mãos das irmãs carmelitas.

Funcionária segura vela de 1m de altura; irmãs produzem velas de vários tamanhos e temas

Estátua de São José é destaque no mosteiro, que leva nome do santo
As irmãs e suas vestimentas
Uma das principais características das irmãs carmelitas é a vestimenta usada dentro do Carmelo e, raramente, fora dele, o recatado hábito formado por cinco peças: túnica, escapulário, touca e véu nas cores branco, marrom e preto. Nos pés, sandálias simples. E mais uma vez, elas mesmas fazem seus longos hábitos nas oficinas de costura.
Hoje, a irmã mais velha no Carmelo de Passos está com 91 anos, a irmã Auxiliadora, enquanto a mais nova, a irmã Glória, tem 24 anos. Das 16 religiosas vivendo no local, oito são de Passos e as outras vieram de cidades de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco.

Irmãs carmelitas vestem seu tradicional hábito nas cores branco, marrom e preto / Foto Acervo Carmelo
Até hoje, duas religiosas mais idosas faleceram aos 93 anos no Carmelo de Passos, as irmãs Isabel e Maria Ângela, que são consideradas as que viveram mais tempo no local e completaram mais de 70 anos de dedicação à Ordem das Carmelitas Descalças. O convento também mantém cemitério próprio.

Cemitério onde as irmãs carmelitas são enterradas no próprio convento / Foto Acervo Carmelo
O atendimento pessoal é um dos serviços comunitários das carmelitas, que se desdobram para orar, aconselhar e orientar as pessoas que as procuram por uma palavra de conforto e prece. As irmãs se dedicam a este momento de conversar com os fiéis somente por meio dos locutórios, que são salas com grades separando as irmãs e confirmando a clausura.
Desde sua construção, o Carmelo abriga três locutórios amplos e com cadeiras, onde elas atendem o público no pedido de orações e aconselhamento. “Pela graça de Deus, já tivemos casos de salvar vidas com o nosso atendimento”, conta irmã Elizabeth.
Os atendimentos nos locutórios ocorrem somente com hora marcada antecipadamente pelo telefone (35) 3521-7227.

Locutório onde as carmelitas recebem fiéis que solicitam oração; conversas e contato são por meio da grade para manter a clausura
Nas redes
As irmãs do Carmelo de Passos vivem sua clausura com seriedade e como manda a filosofia de vida das carmelitas. Elas, entretanto, têm permissão de saída do mosteiro em momentos excepcionais, como nos casos de saúde, mortes de parentes próximos, para compras específicas, cursos promovidos pela Ordem e até para votar nas eleições.
Embora a televisão não seja usada no dia a dia do Carmelo, o aparelho é ligado em momentos especiais, incluindo notícias religiosas e fatos importantes para a humanidade e o país. “Já assistimos conclaves para escolha do novo Papa, assim como os jogos da seleção brasileira na final da Copa do Mundo”, confessa a sub-priora.
Com a pandemia da Covid-19 e a intensificação de contato na internet, o aparelho celular também já faz parte do cotidiano das religiosas, mas com restrições e necessidades específicas, como contato com familiares, compras, agendar consultas e usar as redes sociais.
Hoje, o Carmelo de Passos possui perfis oficiais e divulga suas notícias no Facebook, Instagram e transmite ao vivo missa diária às 7h e às 8h no domingo pelo seu próprio canal no YouTube. As irmãs também mantêm contato pelo WhatsApp a fim de facilitar sua comunicação com o mundo fora dos muros do mosteiro carmelita.
SERVIÇO: Carmelo São José de Passos, rua Dom Inácio Dalmont, 339; telefone (35) 3521-7227. Entrega de doações e pedidos de oração podem ser feitos todos os dias da semana das 8h às 18h.




