OPINIÃO

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Mathias Reding / Pexels

Por Paulo Sandroni

Da Agência Bori

06/06/2022

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Entre a metade do século 19 e a Revolução Russa, em 1917, o mundo experimentou um extraordinário processo de integração. Avanços científicos e tecnológicos como as invenções do telégrafo, do cabo submarino ligando continentes, do rádio, do telefone, da energia e da luz elétrica moldaram essa integração. A expansão das ferrovias e do transporte marítimo impulsionada pela abertura dos canais de Suez e do Panamá permitiu um desenvolvimento sem precedentes do comércio internacional e das articulações financeiras correspondentes. 

 

A oferta de ouro aumentou: descobertas na Califórnia, no Alasca e na África do Sul azeitaram e lastrearam o vertiginoso crescimento das transações comerciais e financeiras. O aumento do desempenho industrial e da produtividade elevou a riqueza material (embora mal distribuída) a níveis dificilmente imagináveis no início do século 19.

Em 1917, inaugurando o primeiro país socialista no mundo, a Revolução Russa provocou uma ruptura nessa trajetória e isolou a Rússia Soviética, processo acentuado com a crise de 1929. A criação do bloco soviético após a Segunda Guerra Mundial, com a incorporação dos países do Leste Europeu, e a Revolução Chinesa, em 1949, completaram um quadro de separação de dois mundos, enfraquecendo os vínculos comerciais e financeiros mantidos até então. 

Na década de 1950, o mundo talvez tenha atravessado o período de menor integração. O cenário de isolamento do bloco soviético em razão da Guerra Fria e da China comunista desvinculada dos grandes circuitos comerciais e financeiros contrastava com a maior integração entre os Estados Unidos, a Europa e o Japão.

A queda do Muro de Berlim, em 1989, unificando outra vez a Alemanha, a dissolução da União Soviética e, pouco depois, as transformações capitalistas na China e no Leste Europeu desaguaram na reintegração desses países nos circuitos globais do comércio e das finanças de forma surpreendente. 

O processo de reglobalização acentuou-se e, a partir de 1985, o impulso proporcionado pelo global sourcing promoveu extraordinário aumento da produtividade, embora também tenha expandido os riscos da exacerbação da interdependência.

Com o início da pandemia, em 2020, provocou-se o primeiro golpe nas cadeias produtivas e no fluxo internacional de pessoas, provocando recessão em escala global. O mundo restabelecia-se desse abalo quando a invasão da Ucrânia pela Rússia e as sanções impostas pelos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a esta última iniciaram um processo de desglobalização. 

 

A ruptura comercial e financeira vem isolando a Rússia dos mais importantes mercados comerciais e financeiros dos países desenvolvidos. Consequências imediatas: fortes pressões inflacionárias em escala global, queda da produtividade pelo aumento do custo dos combustíveis, diminuição da produção de alimentos e uma recessão cuja duração é difícil de prever.

As atrocidades cometidas na Ucrânia não serão facilmente esquecidas e, qualquer que seja o desenlace dessa tenebrosa guerra, manterá a Rússia em prolongada quarentena, de modo que sua economia sofrerá mais do que as demais, com exceção da própria Ucrânia, que está devastada. 

Os estragos desse jogo perde-perde são enormes e podem aumentar na razão direta da duração do conflito. O impacto na economia brasileira será a intensificação do binômio indesejável: recessão e inflação.

Paulo Sandroni é professor na Escola de Administração de Empresas da Faculdade Getúlio Vargas (FGV)

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