OPINIÃO

Mercado de vegetais

Mercados imersos: os verdadeiros supermercados

Por Nayla Almeida

Da Agência Bori

25/10/2021

whats.png

Quando o assunto é abastecimento alimentar, enfrentamos, hoje, um cenário desafiador: alta no preço dos alimentos, um quase desaparecimento de políticas públicas alimentares (como o Programa de Aquisição de Alimentos), a ausência de estoques públicos reguladores de preço. Além disso, vimos, no início de 2019, a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, onde debates e conquistas históricas foram possíveis no campo da segurança alimentar e nutricional do Brasil.

Diante de tantas dificuldades, a pergunta que se coloca é: como garantir o abastecimento e o acesso a alimentos frescos e saudáveis para toda a população brasileira? É tempo de refletir sobre a capacidade do território nacional ser resiliente frente a desequilíbrios internos, como decisões políticas e econômicas equivocadas, e choques externos, como as pandemias.

Um ponto fundamental nessa questão são os tipos de mercados onde se compram alimentos. Um estudo deste ano, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), apontou para a diminuição na oferta de alimentos frescos em mercados alimentares locais — uma consequência da interrupção no transporte e fechamento de fronteiras. O principal achado da pesquisa é que os chamados mercados territoriais ou imersos são essenciais para garantir o abastecimento e o acesso a alimentos saudáveis em nível local.

Mas o que são mercados imersos? O conceito está relacionado a modelos mais voltados a  realidades locais, como feiras livres, mercados de produtores, grupos de consumidores, restaurantes e varejões. Uma de suas principais características é que sua forma de organização se baseia na ação coletiva: criam-se regras formais e informais a partir do lugar onde o mercado se estabelece e das pessoas que participam dele.

Essas iniciativas pensadas em um território específico são mobilizadoras. Unem diferentes atores e instituições locais, envolvendo produtores, comerciantes, organizações da sociedade civil e o poder público.

O resultado desse tipo de organização é visível, por exemplo, quando se vai à feira. É notável a oferta de produtos distintos, seja em termos de preço, reputação do produtor (e/ou do produto em si). Por vezes, o alimento vendido envolve um saber específico ou o uso de recursos disponíveis apenas em um determinado território — caso de uma fruta nativa ou de uma receita tradicional. Seus benefícios fazem com que eles sejam os verdadeiros supermercados.

O modelo difere dos mercados convencionais, hoje muito presentes em nosso cotidiano. Estes são como os sistemas alimentares globais: operam a partir de regras e padrões bem definidos, funcionando da mesma forma em qualquer lugar do planeta. Fazem com que seja possível encontrar os mesmos produtos em países de culturas alimentares diferentes, desconsiderando as diversidades.

É claro que os sistemas alimentares globais continuarão existindo. O fluxo de alimentos continuará inundando os supermercados com o mais do mesmo, com centenas de novos produtos aparentemente diversos. Mas, ao mesmo tempo e eventualmente num mesmo lugar, existem outros arranjos mercadológicos possíveis: os mercados imersos podem ser opções de abastecimento para além dos supermercados convencionais, enquanto estruturas centralizadoras do valor produzido por milhares de agricultores e agricultoras.

Para pensar e discutir alimentação, também é importante analisar qual o potencial do sistema alimentar local em promover o acesso a alimentos nutritivos, seguros e a preços acessíveis. Iniciativas que levam esses pontos em conta geram a resiliência alimentar de um território, com base nos valores e necessidades de quem vive nele.

 

Nayla Almeida é engenheira agrônoma pela Universidade de São Paulo (USP), mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em sua linha de pesquisa, investiga a construção social de mercados para agricultura familiar

VEJA MAIS