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Reportagem e edição: Keuly Vianney

Fotos: Aluísio de Souza/Keuly Vianney

Arte: Hanna Teixeira

06/06/2019

Artistas afirmam que muitas famílias mineiras estão restaurando peças antigas

para preservar a história

Possuir uma obra de arte em casa não é para qualquer mortal. Mas muitas famílias em Minas Gerais guardam peças antigas, repassadas por gerações, que precisam de certos cuidados para manter suas características originais. É aí que entra a arte da restauração.

O restauro é um ofício que exige muita dedicação. Além de ser um trabalho lento e demorado, é preciso pesquisar, escolher os materiais e as técnicas corretas para revitalização de cada peça. Só assim, a obra será reparada em sua essência e não sofrerá qualquer tipo de interferência que a descaracterize de sua produção primária e original.

Um dos restauradores mais conhecidos em Passos, no Sudoeste de Minas, é o artista Maurício Ponsancini, que trabalha com restauração há cerca de 30 anos (confira áudio). Atualmente, ele restaura qualquer tipo de peça: de pequenos objetos a móveis antigos, principalmente cristaleiras, cadeiras, relógios de parede, quadros, etc .

Em seu movimentado ateliê, é possível voltar ao passado observando as peças que ainda estão por restaurar. “A procura pela restauração hoje é imensa. Você percebe a diferença de 30 anos atrás. As peças antigas têm valor sentimental para muitas pessoas, que começaram a perceber que têm uma relíquia dentro de casa”, disse Ponsancini, que despertou para as artes ainda jovem com a pintura e o desenho.

O que é restauração? - Maurício Ponsancini
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Ele já atendeu famílias da região e cidades maiores, como Belo Horizonte e Campinas (SP), incluindo restauro de altares e peças de igrejas. Imagens sacras portuguesas do século 19 já estiveram nas mãos do artista autodidata, mas que estuda e pesquisa muito sobre a restauração.

“A fonte do meu trabalho é sempre a busca do conhecimento para usar várias técnicas de restauro. As peças chegam muito danificadas e descuidadas, mas quanto mais danificada a peça para mim, melhor, porque no trabalho que executo você vê a volta da peça como ela era. Uma das coisas mais bonitas na restauração é preservar a história de cada objeto”, afirmou Ponsancini.

Tanto é que o artista pesquisa a época e estilo de cada objeto para avaliar as técnicas a serem utilizadas para o restauro. O trabalho pode durar de uma semana até seis meses, dependendo do estado de conservação de cada peça e a busca pelas suas características, como no caso da pigmentação.

O restaurador lembra que já trabalhou em obras de pintores famosos, como o modernista Cândido Portinari (1902-1963). “Uma família de São Sebastião do Paraíso chegou com um floral danificado e assinatura apagada. Não tinha certeza, mas tudo indicou que era um Portinari. Fiz a restauração e depois ligamos para a Fundação Portinari. Isso foi há uns 8 anos. Não sei o que aconteceu com o quadro, pois não tive mais contato com a família”, contou.

Outro quadro apareceu no ateliê de Ponsancini há uns 6 anos, com toda indicação de ser um trabalho de Di Cavalcanti (1897-1976), artista brasileiro que também se destacou no estilo modernista.

“A pintura era uma mulata da série de Di Cavalcanti. Um homem vindo de Delfínópolis trouxe a tela e contou que estava abandonada no galinheiro de uma fazenda. Fiz a limpeza com todo cuidado, sem mexer muito na pintura porque temos a responsabilidade de não interferir na obra. Depois, não tive mais contato, mas orientei para que procurasse a Fundação Di Cavalcanti. No dia a dia, temos muitas histórias e surpresas por causa da arte”, contou Ponsancini. Confira abaixo o antes e depois de peças restauradas pelo artista.

O restaurador e artista José Paiva tem experiência na área há mais de 30 anos, sendo 15 deles em Passos. Desde criança, foi atraído pelas artes em geral, principalmente desenho, e depois se interessou pela restauração de obras de arte. Após fazer cursos na área, trabalhou em antiquários, galerias e igrejas em Santos, Campinas e São Paulo.

Ouça áudio do artista abaixo, explicando sobre o conceito de restauração. Hoje, ele percebe que muitas famílias da região têm maior preocupação em recuperar peças antigas.

“Em cidades grandes, há um mercado de arte que enfatiza o valor histórico e econômico da peça. Aqui, as pessoas têm um valor afetivo, de ligação com determinada obra para dar continuidade a gerações futuras”, disse.

O que é restauração - José Paiva
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Paiva já chegou a restaurar uma coleção de vasos de cerâmica da Grécia Antiga quando atuava em São Paulo. Hoje, atende uma clientela que solicita recuperação de quadros, molduras, porcelanas e imagens sacras do século 20. “Muitas pessoas se contentam em possuir a peça, mas muitas já despertam para essa ideia de conservação e restauração das obras”, avaliou.

Conforme ele, o tempo de trabalho depende do estado geral da peça, bem como o que vai ser restaurado, seja para reconstruir partes ou apenas dar os reparos necessários para reavivar o objeto.  

 “Já peguei imagem de uma Nossa Senhora de madeira com várias camadas de repintura. Foram 8 meses de trabalho para chegar à pintura original. É preciso recuperar a pintura para fazer a leitura completa da peça”, lembrou. “Sigo duas linhas de trabalho: a italiana e a francesa, dependendo do tipo de serviço a ser feito e o que o cliente quer. Mas a maioria das pessoas tem dificuldade em entender que um fragmento tem seu valor artístico e histórico e deve ser conservado. A maioria quer refazer a peça por inteiro”, disse.

Como artista, Paiva também trabalha com réplicas, pois possui no seu acervo um espelho bisotê em estilo rococó francês, cópia de um colecionador de São Paulo, e anjos decorativos, que são cópias dos originais em madeira restaurados numa fazenda de café em Campinas na década de 1990.

Os donos das peças autorizaram as réplicas em resina e ornadas com folhas de ouro. Atualmente, ele trabalha no restauro de um relógio de madeira e de parede, da década de 1930.

Paiva dá algumas dicas para quem possui peças artísticas em casa, mas que descuidam de sua conservação. Fungos, traças, manchas, furos, rachaduras, verniz oxidado, que escurece a tinta com o tempo, são algumas das avarias mais comuns que podem danificar toda a obra a curto e longo prazo.

“Se você tem uma peça antiga, observe o local, a umidade, a luz que incide na peça. É sempre bom olhar, monitorar e limpar a seco. Se aparecer algum estrago, já é hora de restaurar”, explicou Paiva. Veja abaixo peças sob o restauro de Paiva. 

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