ESPECIAIS

No resgate da mitologia brasileira

Reportagem e edição: Keuly Vianney - WebDesign: Hanna Teixeira - 07/11/2020

whats.png

Quem nunca ouviu falar das famosas figuras do folclore brasileiro: Saci-Pererê, Curupira, Iara, Nêgo D’água, Mula sem Cabeça e Lobisomem? E as não menos aterrorizantes Corpo Seco, Pé de Garrafa e Pisadeira? Pois elas estão todas reunidas num trabalho de divulgação sobre a mitologia brasileira que um médico escritor do Sul de Minas Gerais, Eneas Figueiredo Severiano, se propôs a fazer em 2020. Amante da literatura de ficção e de horror, o cirurgião plástico de Passos pretende resgatar as histórias que povoam o imaginário popular tupiniquim há vários séculos.

O resgate é justamente para contrapor a invasão cultural americana no Brasil, como no caso da última semana, quando muitos brasileiros festejaram o Halloween, o Dia das Bruxas, mas se esqueceram do Dia do Saci, comemorado na mesma data, 31 de outubro. Nos seus canais de divulgação, Eneas fez postagens todos os dias comemorando a Semana do Saci, lembrando de um dos mais tradicionais personagens do folclore nacional e outros mitos.  

Eneas Severiano com seu livro Causo, relançado este ano e que conta com histórias de mitos populares / Foto: Divulgação

Desde julho, ele é o responsável e administrador no Facebook da página Mitologia Brasileira, que em menos de um mês saltou de 6.400 seguidores para cerca de 13 mil, mostrando que há muito interesse sobre o tema. Em outubro, criou o perfil também no Instagram, garantindo repercussão considerável nas redes sociais.

Eneas já lançou dois livros bem conceituados no gênero. Causo (2015), que fala sobre mitos e tem a Serra da Canastra como cenário, foi relançado neste ano, e Das Crônicas do Inferno – Tomo I, também lançado em 2020. As duas obras foram publicadas pela Chiado Books, editora portuguesa com sede em Lisboa e centros editoriais em São Paulo, Madri, Miami e Roma. Em processo de produção e cheio de criatividade, o autor já prepara a sequência da trilogia com dois outros Tomos.

Confira entrevista do Noticiar.net com Eneas Severiano, que conta um pouco da sua relação com a literatura e como são os projetos para preservação da mitologia e folclore nacional:  

Noticiar: Como e quando surgiu a ideia de divulgar sobre mitologia e folclore brasileiros? 
Eneas:
Fui arrebatado pela leitura muito cedo. Cresci vendo a ascensão do videogame e do videocassete, mas com pouco acesso. Sobraram-me os livros. E os gêneros que me cativaram desde criança foram o horror e a ficção. Primeiro, Stephen King. Depois, Lovecraft, (Edgar Allan) Poe, Clive Barker, Neil Gaiman, Alan Moore, Frank Miller e por aí vai. Excetuando King e Poe, os outros autores têm em comum a particularidade de terem criado seres e dimensões paralelas bem peculiares, dando à luz suas próprias mitologias. Talvez o mais célebre seja mesmo Lovecraft, desprezado em sua época e depois cultuado mundo afora até hoje pelos Mythos de Chtulhu. Por fim, zanzando pelas silenciosas serras aqui na nossa vizinhança por anos a fio – isso nos idos de 2005, 2006, antes do boom de turismo dos dias de hoje, era tudo quieto, calmo e a gente chegava nas pousadas e conversava com os donos por horas, imagine isso! -, surgiu a pergunta: por que não podemos tornar mais críveis e trabalhar da mesma forma nossas criaturas, entidades brasileiras, assombrações nacionais, histórias e “causos” regionais, mitos essencialmente provindos de nossa cultura e folclore?  Assim, surgiu o embrião de “Causo”, o livro. De maneira inconsciente, totalmente circunstancial. Mais recentemente, com as mídias sociais, indissociáveis da comunicação no mundo de hoje, surgiu a oportunidade de divulgar tanto a obra, quanto seus personagens, praticamente todos seres típicos do imaginário popular brasileiro. 

Noticiar: Qual seu objetivo com este trabalho? Acredita que essas culturas estão esquecidas e menosprezadas?
Eneas:
O objetivo é realmente resgatar essa mitologia, deturpada e esquecida, em detrimento da “mitológica” parafernália hollywoodiana com que convivemos há uns 40, talvez 50 anos (?). Consomem-se zumbis, freiras fantasmas, crocodilos gigantes, vampiros adolescentes e bonecas malignas, mas basta citar um Saci e o desdém aparece junto, saltitante. Poucos conseguem aceitar que se possa obter algo relevante, interessante daí. Respondem logo que “é coisa de índio, de Brasil colônia”, coisas do tipo. Eu discordo. O que falta é parar de atentar para as características do mito e, utilizando-as, inseri-lo em histórias razoáveis. Creio que as pessoas ainda pensam assim por dois motivos principais: há uma infantilização, promovida pela maioria dos que abordam o assunto, como se fantasia e seres imaginários fossem coisas apenas para crianças. E, claro, preconceito. Pretendo atingir todos aqueles com a mente aberta para aprender mais sobre nós mesmos. Desde aqueles cujos olhos brilharão de saudade até aqueles que sentem este forte preconceito e se agarram ao aparelho mágico dentro do bolso como defesa. Todo ser humano deveria ao menos conhecer sua própria mitologia, seu folclore. Mesmo que, após o contato, não goste. Este é um mundo (mais ou menos, agora, né) livre. Mas sinto, de verdade, que temos um nicho bem recatado a ser explorado, se abordado da forma adequada.  No post que inaugurou a Semana do Saci (e não do Halloween), eu comentei justamente sobre isso. 

Noticiar: Quais figuras folclóricas e mitológicas você já divulgou? Quais são mais emblemáticas para você? 
Eneas:
Para mim, os mais atraentes seguem sendo o Lobisomem (mito de abrangência mundial), o Saci e o Curupira.  Decididamente, são todos brasileiros. Embora, claro,  guardem discretas diferenças de região para região. Já falamos sobre Jequitibá Monstro, o Saci (em trecho de conto inédito, que virá no Tomo III "Das Crônicas"), Curupira, Iara, Nêgo D’água, Lobisomem, Bruxas, Corpo Seco, Pé de Garrafa, Pisadeira e sobre o baluarte, defensor do folclore nacional, o potiguar Câmara Cascudo. Alguns posts atingiram centenas de milhares de pessoas. Mas, o normal é que a página receba pelo menos algumas dezenas de milhares de visualizações em cada post. (Veja algumas figuras abaixo, logo depois da entrevista) 

Noticiar: Você já escreveu um livro sobre esse tema, Causo. Há alguma relação entre o livro e esta divulgação que iniciou este ano? 
Eneas:
O livro Causo foi lançado em 2015, mas ganhou nova roupagem este ano, com uma edição bem caprichada da Chiado Books. É um “romance desconstruído na forma de contos”, onde mesclam-se primeira e terceira pessoa, confundindo de forma saudável o leitor, parte da brincadeira do livro (induzida pelo Saci, quem vai saber?). Apesar da nova edição ter vindo com 590 páginas por causa do tratamento gráfico diferente, não é cansativo de se ler. Fiz questão, desde o começo, de escrever da maneira mais dinâmica possível e evitar “enrolar o leitor”.  Cada capítulo trata de uma assombração ou entidade, sempre com viés tenebroso, sinistro. Na obra, as criaturas brasileiras estão longe de serem simples pregadoras de peças. São más, defensoras ferrenhas da natureza e inimigas de seu maior profanador: o homem. Sacis, curupiras, iaras, lobisomens, negos d’água, boitatás, bruxas, jequitibás monstros, mapinguaris, mula sem cabeça, estão todos lá. Mas, repito, não são nada bonzinhos. Lá, “os bichos pegam”. O retorno dos eventuais leitores é sempre positivo, nunca recebi críticas ferrenhas, as respostas são sempre elogiosas e engrandecem o ego. Ele, o maldito ego. 

Noticiar: Quais seus projetos futuros sobre esse trabalho e o folclore nacional?  
Eneas:
Já tenho um segundo livro publicado: Das Crônicas do Inferno – Tomo I. Também o divulgo na página de mesmo nome. Embora um ou outro conto se passe fora do país, a maioria dos acontecimentos bizarros acontecem aqui, nesse país (onde é difícil fazer alguém acreditar em alguma coisa). Tenho os outros dois “Tomos” em processo de escrita, onde volto a abordar, entre um e outro conto, mais criaturas do folclore nacional, com histórias completas sobre o Corpo Seco, Mapinguari, Saci, entre outros. Também tenho um quinto livro em desenvolvimento, dessa vez, novamente apenas com histórias do folclore nacional, reforçando a teoria de que podemos sim trabalhar a mitologia nacional, repaginá-la e voltar a despertar o interesse dos próprios brasileiros para ela. Por fim, tenho planos de transferir a escrita para acesso audiovisual, gravando curtas, explicativos ou em lugares pitorescos, para incentivar e me adequar à realidade incontestável desta mídia. Por exemplo, uma das coisas que mais leio nos comentários das páginas é: “nossa, que tamanho de texto!” ou “não vou ler de jeito nenhum”. Embora eu não pense em ceder definitivamente à preguiça mental e ofertar tudo o que deveria estar ali nos livros “mastigado e coado”, é preciso reconhecer que, se a intenção é chamar a atenção para determinado assunto, devemos nos adaptar. Também já penso em como deixar acessível para deficientes visuais e de audição. Mas, de maneira teimosa, as surpresas vão continuar empacotadas dentro dos textos dos livros, como uma experiência particular para cada eventual leitor. Afinal, quantas vezes se “assiste ao filme” para depois “achar o livro muito melhor?” 

CAUSO NOVA CAPA.jpg

‘Causo’ é considerado o primeiro livro mineiro de horror e tem Serra da Canastra como cenário / Foto: Divulgação

cronica.jpg

‘Das Crônicas do Inferno – Tomo I’, de 2020, é o segundo livro escrito por Eneas Severiano / Foto: Divulgação

Descubra personagens folclóricos

Os perfis da Mitologia Brasileira no Facebook e Instagram divulgam várias informações sobre os principais entidades e personagens folclóricos do Brasil, além de dados sobre a mitologia em geral.

Lá, estão os mais conhecidos e populares, assim como os mais instigantes. Além de informação histórica, técnica e popular, muitos dos posts são enriquecidos culturalmente, com telas, imagens, vídeos, que conquistam a quem se interessa pelo tema.

Veja alguns personagens selecionados pelo Noticiar.net, com os dados divulgados nas páginas do perfil Mitologia Brasileira. Arraste para o lado e clique nas fotos para ler legendas:

SERVIÇO

Causo (2020), 590 págs., R$ 52,00 o livro e R$ 20,00 o e-book. Das Crônicas do Inferno – Tomo I (2020), 202 págs, R$ 47,00 o livro e R$ 20,00 o e-book. Editora Chiado Books. Disponível na Livraria Cultura, Saraiva e Amazon. Facebook: Mitologia Brasileira e Causo / Instagram: @mitologia_e_folclore_brasil.

VEJA MAIS

Lockdown Inteligente

No lockdown inteligente, passense conta como está flexibilização na Holanda

VEJA MAIS

VEJA MAIS

Pandemia em NY

Direto de NY, passense relata como vida mudou com o

novo coronavírus

VEJA MAIS

VEJA MAIS

Mosaico picassiette

Especialista é uma das únicas artistas na região a desenvolver técnica

VEJA MAIS